De modo geral, as primeiras canções da Nação Zumbi se formaram por uma sequência de versos isolados, com imagens soltas, que foram se integrando gradativamente à ideia central que conduzia a canção. Talvez um dos exemplos mais eloquentes desse tipo de construção musical e poética estaria na música “A cidade”, do álbum Da lama ao caos (1994). A letra da canção faz um retrato da situação urbana de Recife e tem em sua introdução a execução de uma música de Velho Faceta, um cantor de rua que era conhecido por compor pastoris com temáticas românticas, lúdicas ou de conteúdo sexual não muito explícito.
Assim, traz um contraste entre o Recife conhecido como ponto turístico frequentemente procurado por milhares de turistas brasileiros e estrangeiros e a cidade onde as desigualdades e a violência crescem de modo exponencial. Para falar de seus elementos paisagísticos e personagens – todos eles regidos pelas palavras de ordem do refrão (“A cidade não para, a cidade só cresce/ O de cima sobe, o debaixo desce”) – usa de uma série de metáforas que se apresentam já nos primeiros versos.
Os policiais são identificados como “cavaleiros”; os grandes edifícios são “pedras evoluídas”; e os “urubus” são todos aqueles que tiram vantagem das injustiças cotidianas daquele cenário urbano. Como solução para todos esses problemas, é proposta a invenção de uma canção “envenenada”, que teria o poder de tirar todos da lama para poderem “enfrentar os urubus”. Em sua dimensão instrumental, a música parece justamente cumprir o que a letra propõe ao seu ouvinte. “A cidade” é representada por uma guitarra que executa um riff próximo ao funk, mas conta com uma distorção pesada que lembra os timbres de uma guitarra de heavy metal. Já na seção rítmica, há a presença de alfaias, ganzás e da caixa de rufo – instrumentos típicos do maracatu nação –, que se apresentam como o “veneno” peculiar ao manguebeat.





